O jornal é a dor do mundo (Raimundo Carrero), as “redes sociais”, o devaneio…
Faz tempo que converso sozinho sobre “redes sociais” (leia esses textos no antigo blog, caso tenha curiosidade), mas finalmente, meu murmúrio sobre o fim do mundo (delas) parece estar se materializando (eu ouvi um amém?).
É que o Instagram (Meta) e o YouTube (Google) foram condenados nos EUA a pagarem uma indenização de US$ 6 milhões a uma jovem chamada Kaley, pela acusação de que seus aplicativos são deliberadamente viciantes e de que negligenciam a proteção de crianças. Ou seja, até o país da “liberdade de expressão”, que aqui no Brasil tem esse lema usado pela extrema direita como desculpa para cometer crimes de ódio, reconhece os malefícios da manipulação algorítmica!
A notícia pode ser lida nesta matéria do G1: ‘Qual o impacto de condenação nos EUA para o futuro das big techs?’ e em resumo, destaca o impacto negativo dessas redes e como elas contribuem para o desenvolvimento de depressão, pensamentos suicidas e dismorfia corporal, o que motivou o processo da jovem.
Especialistas acreditam que o caso pode ser o início do fim da “era da impunidade” e também forçar as plataformas a abandonarem recursos de engajamento viciantes, como a rolagem infinita e a reprodução automática, recursos que exploram de forma eficiente um de nossos bugs mentais.
Obviamente, as empresas vão recorrer, mas o veredicto, por tocar onde dói (R$), já me parece uma ação efetiva para reforçar a regulamentação dessas grandes empresas e do uso das redes por menores de 16 anos, medida já adotada na Austrália, em debate no Reino Unido e recentemente implementada aqui no Brasil pela Lei Felca (ou ECA Digital, Lei n.º 15.211/2025); inclusive com bastante desinformação, propagada (in)justamente… pelos algoritmos das “redes sociais” (conflito de interesses…)!
Ainda hoje, me surpreende as pessoas não perceberem a diferença entre “redes sociais” e empresas de dados. Todo mundo fala: “Vou te passar meu insta, meu face…”, com a ilusão de que possui o controle das interações nessas plataformas, quando na realidade, são elas, as empresas, que possuem todos os nossos dados e o poder de manipulação, incluindo os (metadados) das pessoas que não participam de nenhuma delas (meu caso).
Nas aulas, com meus estudantes, sempre que comento em tom provocativo sobre o fim do Insta e do TikTok (para citar as redes das quais eles mais se deixam seduzir), sempre eles fazem aquela cara de espanto incrédulo, como se fosse algo catastrófico de acontecer; uma reação justificável para quem já nasceu sob a sombra dessas plataformas. Nessas horas, conto para eles que no passado também era comum associar esportes ao cigarro, pela indústria tabagista, e eles expressam a mesma surpresa, e a conversa rende…
No final, o que espero mesmo é que eles tenham a oportunidade de experienciar o tédio da passagem de uma tarde chuvosa num mundo analógico, que é diferente de uma mesma tarde sem uma conexão wifi. A primeira tem um céu azul com cheiro de terra molhada no ar, após o vento levar as nuvens cinzas; a segunda, só a frustração de não ter nenhuma notificação após uma longa espera. Eles não sabem que do tédio nasce a criatividade…
Para finalizar, recomendo a leitura do livro “Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais” do Jaron Lanier, cientista da computação e um dos precursores da realidade virtual (spoiler, não precisa deletar, mas saber usar e não ser usado; e conhecer as redes federadas, as verdadeiras redes sociais, feitas por pessoas e para pessoas…) e também a escuta do episódio “A crise de saúde mental entre os jovens brasileiros”, um dos meus podcasts favoritos, O assunto.
Ah, como pessoa caída numa placenta no fim dos anos setenta (e independente de não ser neurotípico), posso afirmar com algum grau de certeza que é possível conciliar a vida analógica com o mundo digital e se você já me leu antes, sabe bem a diferença que faço entre a vida e o mundo (como descrevo neste texto: “Sobre a carta para a pessoa amiga…”).

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