Um
brevecomentário sobre A Odisseia, o novo filme do Nolan.
Vocês sabem, sou um leitor/espectador desarmado, ou seja, entro numa estória bem contada da mesma forma que entramos num sonho, sem nos dar conta. Nolan sabe contar estórias e a Odisseia é uma dessas que, por si só, já é excelente de ser contada. Por isso não será surpresa se disser que gostei!
Também sabem que não uso redes sociais, não gosto de ver comentários antes dos filmes, as conhecidas críticas especializadas, principalmente as negativas, porque geralmente o argumento usado é alguma variação rasa de que a versão cinematográfica não está de acordo com a versão escrita.
Tudo bem não gostar de algo, mas afirmar categoricamente que é ruim porque não gostou soa bem pretensioso (e tudo bem gostar de algo ruim também, o que não é o caso). Soube que o Nolan também não se deixa ser usado por redes sociais.
Muitos desses críticos (que provavelmente nunca escreveram uma única linha elaborada de texto) se esquecem ou agem de má-fé em função do engajamento algorítmico, de que versões (cinematográficas e escritas) são exatamente isso: variações de uma mesma história. Mas a gente também sabe que aceitar a diferença é algo desencorajado em nossos tempos de fim de mundo.
Pessoalmente, gosto do jeito como o Nolan conta estórias, porque, dentre muitas de suas habilidades, ele explora bem duas, para resumir os exemplos, que eu, enquanto leitor, aprecio muito: o detalhe e a sugestão.
Os detalhes, para quem tem sonhos lúcidos (“Sobre sonhos lúcidos…“), são os que nos avisam que estamos num sonho. No caso do Nolan, ao contrário, eles me parecem como elementos de conexão (inclusive, ele já explorou isso em outro filme, A Origem).
É como se ele dissesse: “Olha aqui esse detalhe, ele não é intrigante?” Às vezes são alguns bem implícitos, outras, bem óbvios. Mas, em vez de desconectar, a gente fica mais fascinado pela estória. E, independentemente da função pretendida pelo Nolan, sobre mim isso tem um efeito imersivo.
Pausa para pequena digressão: no segundo filme do Aranhaverso, do Miles Morales, tem um detalhe minúsculo e breve que nos diz que ele está no multiverso errado! Mas, como a cena tem uma carga emocional forte, nem o personagem nem grande parte dos espectadores percebe (por um acaso notei, porque, no geral, mas nem sempre, sou a pessoa dos detalhes). Se você também percebeu, me envia um e-mail contando, para eu saber. Fim da pequena digressão.
A outra coisa é a sugestão. Quando a gente lê uma versão escrita, nós mesmos criamos nossas imagens; para mim, a alegria da leitura reside nisso. Mas Nolan também nos permite essa liberdade, quando deixa lacunas explícitas, favorecendo as nossas próprias interpretações.
Seja na não exibição do rosto do Agamenon nem de algumas entidades sobrenaturais, seja na não explicação de algumas cenas ou na não inserção de partes conhecidas da versão literária (neste caso, talvez por questões de tempo), tudo isso é sugestão.
É como se ele dissesse: “Olha, estou contando a minha versão da estória, mas nessa parte, você pode imaginar do seu jeito, tudo bem?” Para mentes curiosas, um presente; para aqueles críticos especializados, um defeito.
No início eu disse que a Odisseia é uma estoria boa de ser contada, mas omiti a obviedade da explicação: apesar do tempo, ela trata de temas que nos tocam ainda hoje, enquanto seres humanos, os universais.
Nossa cultura atual (a maioria das outras antigas também, a própria Odisseia é uma compilação de tradições orais já existentes) é profundamente marcada por uma mistura de diversas tradições anteriores. E tudo que toca nossa humanidade parece nos acompanhar no tempo.
Uma delas, bem repetida no filme, é a “hospitalidade de Zeus”, uma regra de bom acolhimento baseada na ideia de que os deuses se disfarçariam de viajantes para testar a benevolência dos gregos. Ainda hoje, muitos cristãos também acreditam que o próprio Jesus se disfarça de mendigo com a mesma finalidade (ver Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna).
Se hoje podemos questionar a ação em si (não deveríamos ajudar apenas por ajudar? Sem pensar se há ou não um teste divino por trás do pedido?), a tradição continua a mesma, mesmo depois de séculos: a universalidade!
Se você já viajou para alguma cidade do interior do Nordeste, já deve ter percebido que o acolhimento é diferente das capitais. Geralmente as pessoas são “mais anfitriãs”, uma característica comum em muitas cidades da região.
Para os gregos, a hospitalidade não era apenas um ato de gentileza, mas um princípio religioso e moral, um pouco semelhante a nós, nordestinos; principalmente no período das festas Juninas. Uma curiosidade relacionada: o português que falamos hoje é uma variação no tempo e no espaço do grego (e também do latim, do ponto de vista genealógico).
Ao contar sua versão da estória, Nolan também inventa uma reviravolta interessante e crível, ou seja, mais um defeito, segundo os críticos especializados (ironia aqui, certo?).
Mas, como disse antes e nunca me repito, a Odisseia já era no seu tempo uma grande compilação de tradições orais anteriores. Ele só está fazendo hoje o que outros autores já faziam antes, mesmo na Grécia: contando a sua versão dessa longa conversa.
Os nerdolas também expressaram racismo por conta das personagens negras, mas não vou comentar sobre isso porque, primeiro, é uma estória mitológica (ou seja, sem nenhum compromisso com o que essas pessoas acreditam ser a “realidade”) e, segundo, o racismo que existe hoje não existia naquela época (por mais incrível que isso pareça!).
Se quiser saber mais sobre o tema, tenho este texto na antiga versão do blog, chamado: “Sobre o racismo…”
A gente sabe que estória de Odisseu é muito mais do que uma simples jornada do herói, com aventuras e batalhas; é também sobre os temas universais que nos tocam enquanto seres humanos: amor, amizade, reconhecimento, solidão, arrependimento, esperança, vida, morte…
O filme é longo (mais de 2 h, que passaram sem eu perceber), bem imersivo e impactante, principalmente no final. O elenco (e atuações), nem se fala. A sessão que assisti estava cheia e bem heterogênea etariamente; inclusive, vi reações emocionais das mais diversas, como fazia tempo não via numa sessão de cinema. Obviamente vou reassistir.
E, para isso, se puderem ajudar fazendo compras pelo link da lojinha, na qual recebo uma pequena comissão, agradeço!
Acredito que o filme vai estimular a leitura da versão escrita (dizem que vai ganhar vários Oscars); eu mesmo fiquei com muita vontade de ler, apesar de que antes, vi na livraria do shopping que uma das versões do livro custa mais de R$ 200.
Será que Homero (ou os autores que se atribuem à autoria da obra) deixaram descendentes para receber pelos direitos autorais (ironia aqui, certo)?
Por fim, a última vez que saí do cinema com o mesmo nível de fruição contemplativa foi em Devoradores de estrelas (que li depois, inclusive).
Enquanto esperava o ônibus e observava as pessoas conectadas em seus celulares (e desconectadas umas das outras), fiquei com aquela sensação de deslocamento temporal, como se tivesse recém chegado a um mundo diferente, aproximadamente 2700 anos depois, mas ainda assim, estranhamente reconhecível…
Uma última curiosidade: quando a Odisseia e a Ilíada foram compostas, ainda não tinha sido escrita a maior parte dos livros que integram o Antigo Testamento.
Enquanto Homero (o presumível autor) compunha a Odisseia na Jônia (atual Turquia), o profeta Isaías (que escreveu os primeiros 39 capítulos do livro que leva seu nome) ainda estava ativo em Jerusalém, ou seja, eles foram contemporâneos!
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