Textos inacabados sobre assuntos diversos, sem bases confiáveis ou às vezes nexo…

Sobre Raimundo Carrero…

O jornal é a dor do mundo. Raimundo Carrero.

Em 2017, eu tinha acabado de deixar minha cidade feliz. Naquela época, que agora me parece outra vida, estava deslocado pela mudança e nada diria que em breve perderia minha mãe e meu melhor amigo. Foi uma dessas fases difíceis que todos passamos e, no meio daquele turbilhão de acontecimentos, um dia, perdido no meu refúgio da biblioteca do CAC, da UFPE (Centro de Artes de Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco), fui tocado pelo sopro da serendipidade.

Serendipidade é uma das minhas palavras favoritas do português, porque sua sonoridade me parece de acordo com um de seus sentidos: descoberta fortuita de algo bom. Como encontrar uma pedra doce colorida no meio de várias cinzas e salgadas. Eu me encontrava perdido no labirinto dos corredores quando, de longe, um livro torto coçou meu cérebro. “As pessoas não arrumam os livros…”, disse uma das vozes de minha cabeça, a impaciente. E lá fui eu mesmo arrumar aquele “caroço” que tinha me incomodado só de olhar.

Quando toquei no livro branco, li na lombada “A preparação do escritor”. Mas não da mesma forma que, provavelmente, você está lendo agora, neste texto. Foi uma outra voz que ouvi na minha mente, uma dessas tantas desconhecidas que se escondem dentro da gente, mas que só escutamos de vez em quando; era uma voz tímida. Quando comecei a folhear o livro, eu não sabia que em breve publicaria um livro de contos por causa daquele livro.

Eu nunca tinha ouvido falar de Raimundo Carrero, mas, quando sentei no chão do mesmo corredor para admirar aquela pedra doce colorida, era como se aquela voz tímida de minha mente tivesse convidado o próprio autor e ele recostasse ali comigo, iniciando aquela primeira conversa. Era uma voz que eu também nunca tinha ouvido antes, mas era uma conversa boa, de alguém generoso e paciente explicando para um dublê de escritor desatento que a escrita não é hobby passageiro, é ofício constante…

Eu li outros livros dele, mas este, por algum motivo, releio sempre que posso, porque não me parece um livro comum, um simples manual de escrita. É sim um manual de escrita. É também uma fonte de consulta. Mas também é uma conversa com um desses velhos amigos que, por acaso, a gente acaba (re)conhecendo quando encontra alguém pela primeira vez.

No final de meu livro, depois de tanto trabalho, eu agradeci o convite do mestre: “… sendo apenas um sussurro nessa grande conversa das experiências humanas, também chamada literatura.”

Hoje soube de sua partida. Por isso, dou um até logo e agradeço mais uma vez, mas explicitamente: obrigado, Raimundo Carrero. Descanse em paz. A conversa continua…

Escritor Raimundo Carrero ao centro entre dois de seus inúmeros leitores.

Link do livro “Contos revistos: retalhos de escrita…” na Amazon.
Link do livro “Contos revistos: retalhos de escrita…” na versão antiga do sitezinho.


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